Todo mundo quer ter a sua “Coca Zero”
A Coca Zero não é um produto: é prazer intacto com culpa eliminada. Toda empresa quer esse movimento, quase nenhuma entende o que ele exige.
Durante décadas, a Coca-Cola parecia intocável. Um ícone absoluto, sustentado por um sabor inconfundível. Mas o que parecia impossível aconteceu: a marca tirou o açúcar e manteve o gosto.
A Coca Zero não é só um produto. É um símbolo cultural: prazer intacto, culpa eliminada. Um movimento que só foi possível porque a Coca entendeu algo que muitas empresas ainda resistem a aceitar: não é a tecnologia que muda o mundo, é o comportamento humano.
Globo: novela vertical com Jade Picon a fogueira cultural em outro lugar
A televisão brasileira sempre teve sua grande fogueira: a novela das 9h. Era hábito, era ritual, era ponto de encontro nacional. Mas a cultura mudou.
O público jovem não se senta mais religiosamente no sofá às 21h. O tempo de atenção encurtou, a tela saiu da sala e foi para o bolso. E com isso, surgiu um novo dilema: como manter viva a novela se as pessoas já não consomem da mesma forma?
A resposta da Globo foi ousada: lançar sua primeira novela vertical feita para o TikTok, com episódios de 3 a 5 minutos, protagonizada por Jade Picon.
O enredo tem todos os elementos clássicos (triângulo amoroso, amizade e inveja, disputa por herança), mas o formato é outro: rápido, visual, pensado para deslizar no feed, com estética digital e cara de rede social.
Por que Jade Picon? Porque ela representa a voz cultural que o público jovem já segue e reconhece. Não era sobre currículo tradicional de atriz, era sobre pertencer a esse novo espaço de consumo.
A Globo não está só adaptando TV para internet está criando algo nativo para a lógica do celular. É um teste arriscado? Sim. Mas é mais arriscado ainda ignorar que a cultura já mudou.
Legendary Foods: prazer hackeado
Nos Estados Unidos, outra fissura cultural virou oportunidade bilionária.
A Legendary Foods entendeu que tentar reeducar o consumidor não funciona. Que dizer “coma saudável” nunca foi suficiente. Em vez disso, eles abraçaram o prazer: donuts, cookies, pop-tarts, cinnamon rolls. Tudo igual ao que você já conhece — só que com 20g de proteína, sem glúten e zero açúcar.
De 6 milhões de dólares em 2021 para 180 milhões em 2025, praticamente sem mídia paga.
A tese é simples e brutal:
Usa o prazer como vantagem competitiva.
Não tenta reeducar.
Não luta contra hábitos.
Insere benefícios de fininho.
O que parecia comida de prazer virou nutrição funcional. E a performance, que antes era território de marombeiros e atletas, virou mainstream cultural.
TikTok Shop e Temu: o varejo cultural
Enquanto muitas empresas tradicionais ainda discutem se vale a pena “entrar no TikTok”, o jogo já virou.
O TikTok Shop movimentou mais de US$ 26 bilhões só no primeiro semestre de 2025. A Temu, tratada como “modinha chinesa” em seu lançamento, já ultrapassa a marca de US$ 50 bilhões em GMV global.
Mas nada disso é apenas tecnologia.
O TikTok Shop não inventou a vontade de comprar. Ele só tirou o atrito e trouxe a compra para dentro do entretenimento.
A Temu não inventou a busca por preço baixo. Ela transformou desconto em experiência divertida, quase gamificada.
Eles não estão “educando consumidores” estão atendendo a comportamentos que já existiam e só precisavam de um formato mais adequado.
Enquanto isso, muitas marcas seguem presas em discussões internas, esperando “o momento certo” — enquanto perdem espaço para quem age rápido.
O padrão que une todos esses casos
Coca preservou o gosto, tirou a culpa.
Globo preservou a novela, trocou a tela e trouxe a influência digital.
Legendary preservou o prazer, trocou os bastidores da fórmula.
TikTok e Temu preservaram o consumo, eliminaram fricção e transformaram em entretenimento.
Todos eles entenderam a mesma lógica: não é a tecnologia que muda primeiro, é a cultura. A tecnologia só vem depois para viabilizar.
E a sua Coca Zero?
Essa é a pergunta que deveria estar na sua mesa:
Qual é o açúcar que o seu cliente não tolera mais?
Qual é o gosto que ele jamais abriria mão?
Você está tentando reeducar o consumidor ou hackeando o comportamento que já existe?
Se a sua resposta ainda é “educar mercado”, cuidado: startups famintas já estão entregando prazer com performance, cultura com conveniência. E elas não pedem licença.
Conclusão
Coca, Globo, Legendary, TikTok, Temu. Todos só fizeram uma coisa: leram a cultura. Eles não brigaram com o desejo humano, não tentaram mudar hábitos à força, não ficaram presos à nostalgia de um formato.
A sua “Coca Zero” está aí. A questão é se você vai ter coragem de criá-la ou se vai assistir à concorrência transformar cultura em hegemonia.
Posicionamento se constrói por desenho.
Conhecer o método →