O vício do lead novo
Por que "tô sem lead" quase nunca é falta de lead, e a conta de dez minutos que aponta o problema real.
A reclamação que atravessa vinte anos
A reclamação número um de vendedor nos últimos vinte anos é a mesma: "tô sem lead".
Ela atravessa segmento, tamanho de empresa e canal de venda. Aparece na loja de rua, no e-commerce, na indústria que vende por representante. E na maioria das vezes que alguém abre o funil pra conferir, a frase não sobrevive ao que está lá dentro.
O que o funil mostra quando alguém abre
Numa das operações em que fui conferir de perto, o vendedor tinha razão pela metade. Lead novo não tinha mesmo. Mas somando as propostas já enviadas, o valor passava da meta do mês. Estava tudo dentro do funil: orçamento enviado sem follow-up registrado, conversa sem data de retorno, venda que ninguém sabia dizer por que ainda não tinha fechado.
O vendedor não estava sem lead. Estava sem lead novo. E essa diferença define o mês de muita operação.
Por que o lead novo vicia
Lead novo tem gosto de recomeço. A conversa é limpa, ainda não tem objeção, o não ainda não apareceu. Lead parado é o contrário: obriga a voltar numa conversa que esfriou, reabrir um assunto que travou e ouvir o que ninguém quer ouvir.
O comportamento é humano e previsível. Sem processo que force o contrário, todo vendedor tende ao lead novo, e o funil vira um depósito de conversas pela metade. O problema não se resolve cobrando esforço, porque não é preguiça. É desenho: onde não existe régua de retorno, a régua passa a ser a vontade.
A conta que muda a conversa
Antes de comprar demanda ou contratar gente, existe uma conta de dez minutos que quase nenhuma operação faz. Um exemplo com número redondo: meta do mês de R$ 100 mil, ticket médio de R$ 5 mil, taxa de fechamento real de 20%.
Pra fazer 20 vendas fechando uma a cada cinco, precisam existir 100 conversas vivas no funil. Não é opinião, é aritmética. O passo seguinte é abrir o CRM e contar quantas existem de verdade.
O número que aparecer coloca a operação num de três problemas. Cada um tem um conserto diferente.
Problema 1: o funil é raso
Tem menos conversa do que a meta exige. É o único cenário em que a reclamação do vendedor está certa: falta lead de verdade.
O conserto é verba e canal. Calcular quantas conversas faltam, escolher o canal onde o cliente já compra hoje e medir o custo por conversa aberta, não por clique. Clique barato que não vira conversa é a forma mais cara de economizar.
Problema 2: o funil está cheio, mas parado
A conversa existe e ninguém volta nela. Orçamento esperando follow-up, lead respondido com um dia de atraso, negociação sem dono.
O conserto é régua de retomada. Follow-up em 24 horas, 3 dias e 7 dias, combinado por escrito, não no bom senso de cada um. Cada conversa com dono nomeado. Primeira hora do dia dedicada ao funil que existe, lead novo entra depois.
Na prática, o caminho é sentar do lado do vendedor e repassar proposta por proposta com duas perguntas: por que essa ainda não fechou, e o que precisa acontecer pra fechar hoje. Parte destrava ali mesmo. Parte morre de vez. As duas coisas são resultado.
Problema 3: o funil está cheio do lead errado
Gente sem perfil, sem verba, sem momento de compra. O funil parece cheio no painel e está vazio na prática.
Antes de fechar esse diagnóstico, um cuidado: conferir onde o lead está parado. Funil com os leads todos travados na conexão quase sempre indica outra coisa: ninguém falou com eles dentro do prazo. Lead sem resposta no tempo certo esfria e vira "lead ruim" no relatório, quando a qualidade era da cadência.
Confirmado que o lead não tem perfil mesmo, o conserto é na origem, nunca no vendedor: ajustar o público da campanha, endurecer a qualificação na entrada e descartar cedo quem não tem perfil. Funil cheio de lead errado é pior que funil vazio, porque consome o time inteiro e não paga nada.
Onde parou diz o que consertar
A regra que amarra tudo: olhar o pipeline e ver onde a venda parou. Parou na conexão? Conferir SLA e cadência. Parou na proposta? Conferir follow-up e data de retorno. Antes de culpar o lead, conferir se o combinado foi cumprido.
O problema não é não bater meta. É não saber por que não bateu. Meta perdida acontece em toda operação. O que separa quem cresce de quem repete o mês é o diagnóstico: uns acham a causa e consertam o processo, outros marcam reunião pra cobrar esforço.
A conta de dez minutos não fecha venda nenhuma. Ela diz por que a venda não fechou. E operação que sabe o porquê conserta. A que não sabe, repete.
Quer saber por que o seu mês não fechou?
Começar pelo diagnóstico →